- A arqueologia subaquática recuperou dezenas de embarcações mercantes chinesas que datam da dinastia Tang (618–907 d.C.) em diante, fornecendo evidências físicas da construção dos cascos, da composição das cargas e das rotas comerciais que os registros escritos, por si só, não podem oferecer.
- O Nanhai No. 1 (南海一号), um navio mercante da dinastia Song içado do Mar da China Meridional em 2007, está entre as descobertas arqueológicas marítimas mais significativas da história chinesa — transportava mais de 180.000 artefatos e preservava detalhes construtivos de um junco de alto-mar do século XII.
- As evidências dos naufrágios tendem a confirmar, e ocasionalmente complicar, o panorama do comércio marítimo chinês traçado pelos textos históricos.
- Os métodos de construção documentados nesses naufrágios — incluindo anteparas estanques, tabuado disposto de forma nivelada e fixação com ferro — estão diretamente relacionados às técnicas preservadas na tradição das oficinas de Zhoushan.
- O Nanhai No. 1 foi descoberto em 1987 no Mar da China Meridional, a uma profundidade de aproximadamente 20 metros, e formalmente içado em 2007 pelo Museu Nacional da China.
- O navio de Quanzhou, escavado em 1974 na baía de Quanzhou, Fujian, data do final da dinastia Song ou do início da dinastia Yuan (final do século XIII) e continua sendo um dos exemplos mais bem preservados de uma embarcação mercante chinesa de alto-mar.
- O naufrágio de Black Stone, recuperado nas proximidades da ilha de Belitung, na Indonésia, em 1998, transportava cerâmicas chinesas da dinastia Tang e é documentado pelo Museu das Civilizações Asiáticas, em Singapura, como evidência do comércio marítimo do século IX entre a China e o mundo árabe.
- O naufrágio de Sinan, escavado na costa da Coreia do Sul entre 1976 e 1984, revelou mais de 20.000 peças de cerâmica chinesa da dinastia Yuan (1271–1368), segundo o Museu Nacional da Coreia.
- Escavações subaquáticas no porto de Quanzhou identificaram os restos de várias embarcações, corroborando o papel documentado da cidade como um importante porto das dinastias Song e Yuan.
🐚 Por que os naufrágios importam: evidências que sobrevivem quando os documentos não sobrevivem
A história marítima chinesa está documentada em registros oficiais das dinastias, relatos de comerciantes e relatos de viajantes estrangeiros — mas essas fontes tendem a descrever o que era comercializado e para onde os navios iam, não como as embarcações eram de fato construídas. A arqueologia subaquática preenche essa lacuna ao preservar o objeto físico: o tabuado do casco, as armações das anteparas, os métodos de fixação e as disposições de armazenamento da carga, que nenhuma fonte escrita descreve com detalhes suficientes.
Os naufrágios também fornecem evidências inequívocas para a datação. Um navio que afundou com sua carga intacta oferece um ponto fixo no tempo — as cerâmicas, moedas e mercadorias a bordo podem ser datadas de forma independente, situando a construção da embarcação em um período específico. Isso é particularmente valioso para compreender como as técnicas chinesas de construção naval evoluíram ao longo das dinastias.
A distribuição de naufrágios chineses pelas águas do Sudeste Asiático, do Sul da Ásia e da África Oriental também mapeia com mais precisão o alcance real do comércio marítimo chinês do que os registros portuários isolados, que tendem a documentar apenas os pontos finais das viagens, e não as rotas percorridas.
🚢 O Nanhai No. 1: a descoberta marítima mais importante da China
Descoberto em 1987 durante uma pesquisa conjunta sino-britânica e formalmente içado em 2007, o Nanhai No. 1 é uma embarcação mercante da dinastia Song datada aproximadamente do século XII d.C. Foi recuperado quase intacto do leito do Mar da China Meridional, próximo a Yangjiang, em Guangdong, e agora está instalado em um museu climatizado construído especialmente para esse fim — o Museu da Rota Marítima da Seda — onde a escavação continua sob condições controladas.
A embarcação mede aproximadamente 30 metros de comprimento e transportava uma carga de mais de 180.000 artefatos, principalmente cerâmicas de fornos de Fujian e Jiangxi, além de produtos de ferro e objetos pessoais pertencentes à tripulação e aos passageiros. O enorme volume da carga fornece evidências diretas da escala do comércio de exportação de cerâmica da dinastia Song — um comércio documentado em fontes escritas, mas raramente visível com esse nível de detalhe material.
Estruturalmente, o Nanhai No. 1 preserva várias anteparas estanques — uma inovação chinesa na construção naval documentada em textos desde a dinastia Tang — em sua configuração original. Essa confirmação física de uma técnica há muito descrita em fontes históricas foi significativa para historiadores marítimos que estudam o desenvolvimento do projeto de cascos chineses.
🏺 O Navio de Quanzhou: uma janela para a construção da dinastia Yuan
Escavado do porto assoreado de Quanzhou, em Fujian, em 1974, o navio de Quanzhou data do final do século XIII — o período de transição entre as dinastias Song e Yuan. É um dos exemplos mais estudados de uma embarcação mercante chinesa de alto-mar, e seus detalhes construtivos contribuíram para a compreensão acadêmica de como os construtores navais chineses projetavam cascos para viagens em águas profundas.
O casco da embarcação utiliza uma combinação de tábuas dispostas rente e sobrepostas, com várias camadas de tábuas em algumas seções — uma técnica associada à resistência e à impermeabilidade na tradição chinesa de construção naval. Pregos de ferro e cavilhas de madeira eram usados em conjunto, e vestígios de material de calafetagem — uma mistura de óleo de tungue e cal — foram identificados nas junções, em conformidade com métodos descritos em manuais chineses posteriores de construção naval.
A carga incluía madeira perfumada, pimenta, nozes de betel e búzios — mercadorias compatíveis com o comércio do Sudeste Asiático e da região do Oceano Índico, reforçando o papel documentado de Quanzhou como um importante entreposto na rede de comércio marítimo medieval.
🌊 O naufrágio do Black Stone: o comércio da dinastia Tang com o mundo árabe
Recuperado nas proximidades da ilha de Belitung, na Indonésia, em 1998, por salvadores comerciais e posteriormente estudado pelo Asian Civilisations Museum, em Singapura, o naufrágio do Black Stone é de um dhow árabe — não uma embarcação chinesa —, mas sua carga é quase inteiramente chinesa. O navio transportava aproximadamente 60.000 peças de cerâmica da dinastia Tang, incluindo uma quantidade significativa de cerâmica de Changsha, da província de Hunan, além de objetos de ouro e prata.
O naufrágio data de aproximadamente 830 d.C., o que o torna a evidência física mais antiga conhecida do comércio marítimo direto entre a China da dinastia Tang e o mundo árabe. Sua importância para a história marítima chinesa está no que a carga revela: a escala, a organização e o alcance geográfico das exportações chinesas de cerâmica no século IX, período para o qual as evidências documentais são relativamente escassas.
A construção árabe da embarcação — com tabuado costurado, em vez de pregado — também ilustra a diversidade de tipos de navios que participavam das redes de comércio marítimo centradas nos portos chineses, uma diversidade que as fontes escritas chinesas tendem a sub-representar.
🇺🇳 O naufrágio de Sinan: cerâmicas da dinastia Yuan em águas coreanas
Escavado na costa da Coreia do Sul entre 1976 e 1984, o naufrágio de Sinan é de uma embarcação da dinastia Yuan que afundou no início do século XIV enquanto transportava uma carga de produtos chineses — principalmente cerâmicas — de Ningbo para o Japão. O Museu Nacional da Coreia recuperou mais de 20.000 peças de cerâmica, além de moedas, objetos de laca e ervas medicinais.
A rota da embarcação — de um importante porto chinês para o norte, atravessando o Mar da China Oriental — documenta um corredor comercial bem atestado em fontes escritas, mas raramente visível em forma física. A composição da carga, com cerâmicas de vários fornos chineses, sugere que a embarcação reunia mercadorias de diferentes centros de produção antes da partida, em conformidade com o papel de Ningbo como porto de consolidação no sistema comercial da dinastia Yuan.
A construção do casco do naufrágio de Sinan, estudada durante as escavações, apresenta características compatíveis com as práticas chinesas de construção naval da época, incluindo o uso de fixadores de ferro e várias camadas de tabuado nas fiadas inferiores.
🏛️ O que os naufrágios nos revelam sobre o trabalho por trás dos modelos
As técnicas de construção documentadas nesses naufrágios — anteparas estanques, tabuado em várias camadas, calafetagem com óleo de tungue e fixadores de ferro e madeira — não são meras curiosidades históricas. Elas representam um sistema coerente de construção naval que se desenvolveu ao longo dos séculos e ainda era praticado, em forma modificada, nas comunidades costeiras chinesas até boa parte do século XX.
A tradição das oficinas de Zhoushan, estabelecida em 1980, baseia-se no conhecimento desses métodos de construção, preservado na comunidade de construção de barcos do arquipélago. Os modelos produzidos ali refletem proporções do casco, disposições das tábuas e configurações do cordame compatíveis com os tipos de embarcação documentados no registro arqueológico — não como reproduções de naufrágios específicos, mas como expressões de uma tradição construtiva que os naufrágios ajudam a datar e contextualizar.
Nesse sentido, o modelo de navio artesanal e o naufrágio escavado são objetos relacionados: um preservado acidentalmente no leito marinho, o outro feito deliberadamente por artesãos cujo conhecimento provém da mesma tradição documentada pelos naufrágios.
Modelo de Navio Junco Chinês Fu Chuan — Entalhado à mão segundo a tradição das oficinas de Zhoushan, usando jacarandá e madeira de lei, refletindo proporções do casco e métodos de construção compatíveis com os navios mercantes chineses oceânicos das dinastias Song e Yuan.
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- O Fu Chuan: O Navio de Guerra Esquecido da China que Dominou o Mar do Sul da China
Referências e Leituras Complementares
- Flecker, Michael. A Escavação Arqueológica do Naufrágio Intan do Século X. BAR International Series, 2002. — Documenta os primeiros navios chineses de carga nas águas do Sudeste Asiático.
- Needham, Joseph. Ciência e Civilização na China, Vol. 4: Física e Tecnologia Física, Parte III: Engenharia Civil e Náutica. Cambridge University Press, 1971. — A referência acadêmica fundamental sobre as técnicas chinesas de construção naval, incluindo a construção de anteparas e o projeto do casco.
- Museu das Civilizações Asiáticas, Singapura. A Coleção do Naufrágio Tang. acm.org.sg — Abriga e documenta a carga do naufrágio Black Stone.
- Museu Nacional da Coreia. Coleção do Naufrágio de Sinan. museum.go.kr — Principal repositório dos artefatos e registros de escavação do naufrágio de Sinan.
- UNESCO. "Quanzhou: Empório do Mundo na China das Dinastias Song e Yuan." Lista do Patrimônio Mundial. whc.unesco.org/en/list/1561 — Inscrição da UNESCO no Patrimônio Mundial que abrange o patrimônio marítimo de Quanzhou, incluindo sítios arqueológicos subaquáticos.
Observação: A datação do Nanhai No. 1 no século XII baseia-se na análise de cerâmicas e é amplamente aceita, embora a década exata de construção ainda esteja sendo estudada pela equipe de escavação do Museu da Rota Marítima da Seda, em Yangjiang.
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